Estas quatro
fotografias mostram um mesmo lugar. Uma mesma serra vista em anglos diferentes.
Na primeira foto ela é vista de acordo com o episódio que vou contar. A segunda
é vista da casa da minha centenária tia-avó Maria Barbosa Tertulino. A terceira
é vista da lateral da casa de Vitória Barbosa, prima de mamãe - aliás, na terra
dos Barbosa, é a casa mais próxima. Fica a menos de dois quilômetros de sua
base. A quarta e última foto foi feita do terreiro da casa do meu falecido
tio-avô Chico Barbosa. Conhecido também como “Chico do Jipe”. Há mais ou menos 21
anos eu não tinha a visão daquele lugar castigado pela seca. Mas jamais a
esqueci. Ela é parte de mim. Não por está nas terras dos Barbosa, mas, por eu
ter passado três anos da minha infância vendo-a todos os dias. Por isso, nesta
minha última viagem aquela região (21-23/01) fiz questão de fotografá-la para
contar aos meus amigos algo sobre ela. Com exceção da primeira foto, as outras
mostram a serra em diagonal. Sim, só da casa dos meus falecidos avós é que ela
é vista em sua totalidade. Ou seja: de frente. Pois bem, existe (ou
existia no meu tempo de criança) um pé de juazeiro naquela serra. Entre os
meses de outubro e novembro, já com a seca batendo as portas do nordestino
valente, tudo fica de cor cinza - como bem podemos ver nas fotos - mas aquele juazeiro
ficava verde e florido. Mesmo com a distância de uns sete ou oito quilômetros
da casa dos meus avós, ele era claramente visível por ser frondoso, no alto,
bem acima da serra, destacando-se das demais árvores. Vovó olhava pela janela
e, por trás das lentes brancas dos seus óculos, dizia com a fé em sua
religiosidade católica: “Veja, o juazeiro está se enfeitando para o natal”.
Criança, eu olhava naquela direção, ouvia e não entendia absolutamente nada da
força da mensagem poética daquelas palavras doces, sinceras e cheias de
sabedoria sertaneja. No final de 1999 eu
tive o privilégio de conhecer - e conviver por poucos anos - o poeta Chico
Quelé do Encanto (cidadezinha encravada na “tromba do Elefante”). Ele era um
poeta matuto e quando estávamos juntos o assunto era Sertão... Conversávamos em
nosso linguajar mais regional possível. Lembro bem que minha mulher perguntava:
“Vocês estão dizendo o quê”? Depois reclamava: “Quando você está com esse
bêbado eu não entendo nada. Parecem dois estrangeiros.” Sim, o poeta gostava de
uma “branquinha”. E parece que ela o ajudava em seus poemas e trovas. Nas vésperas dos meus
39 anos, conversando com o poeta, ali na Avenida das Alagoas, no Conjunto
Pirangi, abordei o assunto daquele juazeiro da minha infância e a mensagem da
minha avó seridoense de Acauã, nos grotões de Acari. O poeta Chico Quelé ajustou
a camisa no ombro - aberta até o umbigo -, deu uma cuspidela no chão, pigarreou,
levantou a cabeça e gesticulando (fazia tudo isso como um ritual sempre que ia
declamar) disse: “Minha avó sêmpri dizia/E inda ôji mi alembro/Quando
chegava novembro/O juazeiro si vistia/A foia sêca caía/no terreno naturá/Eça
ciênça normá/No sertão agente aceita/O juazero si infeita/Pra festejá o
natá!" - Chico Potengy




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