segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O JUAZEIRO LÁ NA SERRA


Estas quatro fotografias mostram um mesmo lugar. Uma mesma serra vista em anglos diferentes. Na primeira foto ela é vista de acordo com o episódio que vou contar. A segunda é vista da casa da minha centenária tia-avó Maria Barbosa Tertulino. A terceira é vista da lateral da casa de Vitória Barbosa, prima de mamãe - aliás, na terra dos Barbosa, é a casa mais próxima. Fica a menos de dois quilômetros de sua base. A quarta e última foto foi feita do terreiro da casa do meu falecido tio-avô Chico Barbosa. Conhecido também como “Chico do Jipe”. Há mais ou menos 21 anos eu não tinha a visão daquele lugar castigado pela seca. Mas jamais a esqueci. Ela é parte de mim. Não por está nas terras dos Barbosa, mas, por eu ter passado três anos da minha infância vendo-a todos os dias. Por isso, nesta minha última viagem aquela região (21-23/01) fiz questão de fotografá-la para contar aos meus amigos algo sobre ela. Com exceção da primeira foto, as outras mostram a serra em diagonal. Sim, só da casa dos meus falecidos avós é que ela é vista em sua totalidade. Ou seja: de frente. Pois bem, existe (ou existia no meu tempo de criança) um pé de juazeiro naquela serra. Entre os meses de outubro e novembro, já com a seca batendo as portas do nordestino valente, tudo fica de cor cinza - como bem podemos ver nas fotos - mas aquele juazeiro ficava verde e florido. Mesmo com a distância de uns sete ou oito quilômetros da casa dos meus avós, ele era claramente visível por ser frondoso, no alto, bem acima da serra, destacando-se das demais árvores. Vovó olhava pela janela e, por trás das lentes brancas dos seus óculos, dizia com a fé em sua religiosidade católica: “Veja, o juazeiro está se enfeitando para o natal”. Criança, eu olhava naquela direção, ouvia e não entendia absolutamente nada da força da mensagem poética daquelas palavras doces, sinceras e cheias de sabedoria sertaneja. No final de 1999 eu tive o privilégio de conhecer - e conviver por poucos anos - o poeta Chico Quelé do Encanto (cidadezinha encravada na “tromba do Elefante”). Ele era um poeta matuto e quando estávamos juntos o assunto era Sertão... Conversávamos em nosso linguajar mais regional possível. Lembro bem que minha mulher perguntava: “Vocês estão dizendo o quê”? Depois reclamava: “Quando você está com esse bêbado eu não entendo nada. Parecem dois estrangeiros.” Sim, o poeta gostava de uma “branquinha”. E parece que ela o ajudava em seus poemas e trovas. Nas vésperas dos meus 39 anos, conversando com o poeta, ali na Avenida das Alagoas, no Conjunto Pirangi, abordei o assunto daquele juazeiro da minha infância e a mensagem da minha avó seridoense de Acauã, nos grotões de Acari. O poeta Chico Quelé ajustou a camisa no ombro - aberta até o umbigo -, deu uma cuspidela no chão, pigarreou, levantou a cabeça e gesticulando (fazia tudo isso como um ritual sempre que ia declamar) disse: “Minha avó sêmpri dizia/E inda ôji mi alembro/Quando chegava novembro/O juazeiro si vistia/A foia sêca caía/no terreno naturá/Eça ciênça normá/No sertão agente aceita/O juazero si infeita/Pra festejá o natá!" - Chico Potengy

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