Hoje faz 30 anos de falecimento
de minha avó materna. Maria Pereira (dos Santos) Barbosa nasceu em uma região
chamada de Acauã, no município de Acari - alto sertão seridoense - a 15 de janeiro de 1898. Seu pai se
chamava Elpídio Pereira dos Santos. Sua mãe, Maria Luíza da Conceição (falecida
em 1913 (provavelmente) quando vovó contava 15 anos de idade. Em 1935 ela
adquiriu uma bronquite asmática que a castigou anos a fio. Tenho muitas
lembranças de minha avó... E o que lembro bem? alta, loura de olhos azuis
feitos duas pedras de anis, por trás de um par de óculos redondo, lentes
transparentes e hastes finas. Escovava seus dentes com um tipo de creme caseiro
de juá. Os cabelos também eram lavados com o mesmo creme, depois presos com uma
marrafa. Era uma a amante da limpeza. Lembro que toda a louça da casa, depois
de lavada, era mergulhada em um enorme alguidar de argila com água fervendo
dentro. Vi tantas vezes isso... Uma mulher calma, de um sorriso bonito, sem
exagero. Voz tranqüila. Jamais proferiu um palavrão. Muito educada. De uma
religiosidade única. Acreditava na Igreja Católica e todos os santos. Via os
padres como representantes do Senhor Jesus. A missa era sua “festa” preferida.
Me ensinou a rezar o “Pai Nosso”, a “Ave Maria”, o “Credo” e o “Santo Anjo do
Senhor”. Me levava à missa, na segunda-feira pela manhã, dia da feira de
Barcelona e da missa da semana. Montada num cavalo manso. Eu na garupa do
animal, me segurava em sua cintura, com força, com medo de cair. Ela era membro
da “Ordem de Nossa senhora do coração de Jesus” (creio ser esse o nome...).
Exibia, com zelo, pendurada no pescoço, aquela fita vermelha com uma medalha
contendo os símbolos religiosos. Em seu quarto, estrategicamente voltados para
sua cama, havia quatro quadros: Deus segurando o globo da Terra (ele tinha um
olhar muito sério. Eu temia fitá-lo!), Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, São
Braz, e São João do Carneirinho. Lembro também que foi ela quem me tirou o
habito infantil de fazer xixi noturno. Levantava, na madrugada, me acordava –
eu deveria ter entre 3 e 4 anos – para evitar sujar minha rede. Quando botava
minha comida no prato, perguntava em sua linguagem regional: “abasta”? Eu
respondia, positivamente, balançado a cabeça sem tirar os olhos dos alimentos.
Enquanto costurava, junto ao uma janela voltada para a estrada, girando a
manivela de sua Elgin portátil (presente de casamento que ganhou do marido)
cantava belíssimas canções. Ainda me recordo de “fragmentos”: “Saí lá de
casa/pela madrugada/deixei uma amada/chorando por mim./Adeus praias
saudosas/que de mim vão sumindo/o vapor correndo/no trilho zunindo”... A que
mais se parece com ela, diz assim: “De noite quando me deito/não quero porta fechada/por
que deixando aberta/eu julgo que vais voltar. Se voltares como penso/terei um
prazer imenso/de tornar a te abraçar./Oh que... (?) num cantinho pendurada/
pois nem eu, nem ela canta/e vamos todos a chorar”... Vovó cantava outras que
nunca ouvi em outras bocas. Creio serem músicas sertanejas perdidas no tempo...
No dia 9 de outubro de 1985, vovó fez sua viagem de retorno ao Pai, em que
tinha tanta fé. Estava em São Paulo do Potengi, na casa de meu irmão mais
velho, José Luiz. No dia seguinte, seu corpo foi repousado no chão do Cemitério
Municipal de Barcelona. A tradição sertaneja enterra seus mortos no chão. Há
quem diga que é um costume judaico da Região do Seridó. - Chico potengy
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