sexta-feira, 9 de outubro de 2015

MARIA, MINHA AVÓ


Hoje faz 30 anos de falecimento de minha avó materna. Maria Pereira (dos Santos) Barbosa nasceu em uma região chamada de Acauã, no município de Acari - alto sertão seridoense - a 15 de janeiro de 1898. Seu pai se chamava Elpídio Pereira dos Santos. Sua mãe, Maria Luíza da Conceição (falecida em 1913 (provavelmente) quando vovó contava 15 anos de idade. Em 1935 ela adquiriu uma bronquite asmática que a castigou anos a fio. Tenho muitas lembranças de minha avó... E o que lembro bem? alta, loura de olhos azuis feitos duas pedras de anis, por trás de um par de óculos redondo, lentes transparentes e hastes finas. Escovava seus dentes com um tipo de creme caseiro de juá. Os cabelos também eram lavados com o mesmo creme, depois presos com uma marrafa. Era uma a amante da limpeza. Lembro que toda a louça da casa, depois de lavada, era mergulhada em um enorme alguidar de argila com água fervendo dentro. Vi tantas vezes isso... Uma mulher calma, de um sorriso bonito, sem exagero. Voz tranqüila. Jamais proferiu um palavrão. Muito educada. De uma religiosidade única. Acreditava na Igreja Católica e todos os santos. Via os padres como representantes do Senhor Jesus. A missa era sua “festa” preferida. Me ensinou a rezar o “Pai Nosso”, a “Ave Maria”, o “Credo” e o “Santo Anjo do Senhor”. Me levava à missa, na segunda-feira pela manhã, dia da feira de Barcelona e da missa da semana. Montada num cavalo manso. Eu na garupa do animal, me segurava em sua cintura, com força, com medo de cair. Ela era membro da “Ordem de Nossa senhora do coração de Jesus” (creio ser esse o nome...). Exibia, com zelo, pendurada no pescoço, aquela fita vermelha com uma medalha contendo os símbolos religiosos. Em seu quarto, estrategicamente voltados para sua cama, havia quatro quadros: Deus segurando o globo da Terra (ele tinha um olhar muito sério. Eu temia fitá-lo!), Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, São Braz, e São João do Carneirinho. Lembro também que foi ela quem me tirou o habito infantil de fazer xixi noturno. Levantava, na madrugada, me acordava – eu deveria ter entre 3 e 4 anos – para evitar sujar minha rede. Quando botava minha comida no prato, perguntava em sua linguagem regional: “abasta”? Eu respondia, positivamente, balançado a cabeça sem tirar os olhos dos alimentos. Enquanto costurava, junto ao uma janela voltada para a estrada, girando a manivela de sua Elgin portátil (presente de casamento que ganhou do marido) cantava belíssimas canções. Ainda me recordo de “fragmentos”: “Saí lá de casa/pela madrugada/deixei uma amada/chorando por mim./Adeus praias saudosas/que de mim vão sumindo/o vapor correndo/no trilho zunindo”... A que mais se parece com ela, diz assim: “De noite quando me deito/não quero porta fechada/por que deixando aberta/eu julgo que vais voltar. Se voltares como penso/terei um prazer imenso/de tornar a te abraçar./Oh que... (?) num cantinho pendurada/ pois nem eu, nem ela canta/e vamos todos a chorar”... Vovó cantava outras que nunca ouvi em outras bocas. Creio serem músicas sertanejas perdidas no tempo... No dia 9 de outubro de 1985, vovó fez sua viagem de retorno ao Pai, em que tinha tanta fé. Estava em São Paulo do Potengi, na casa de meu irmão mais velho, José Luiz. No dia seguinte, seu corpo foi repousado no chão do Cemitério Municipal de Barcelona. A tradição sertaneja enterra seus mortos no chão. Há quem diga que é um costume judaico da Região do Seridó. - Chico potengy

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