segunda-feira, 10 de junho de 2013

EU, FRENTE A FRENTE COM UMA COBRA


Em janeiro deste ano voltei a minha terra para o aniversario de 100 anos de uma tia-avó - já contei essa história em outro artigo. E, aproveitei para fazer umas visitas a outros parentes, uma vez que desde 1991 eu não aparecia por aquelas bandas. Uma delas foi a uma prima de mamãe chamada Vitória Barbosa. Sua casa lembra a Sede da Escola de Samba Mangueira, do Rio de Janeiro: pintada de verde e rosa. Um dia desse posto aqui fotos. Apesar da seca que assolava a região a vista é de impressionar. Aliás, só a casa dela e de meu falecido tio-avô Chico Barbosa (Chico do Jipe) tem vista panorâmica. Ou como diz mamãe: “Se vê o mundo”.

Daquele terreiro eu pude ver, ao longe, a casa que morou o meu avô e o rio que passava dentro de suas terras – a casa que aparece a esquerda da foto era onde morava Torquato Barbosa de Moura, que era chamado de Cícero Barbosa (conto a verdadeira razão em outro artigo). Tio “Ciço” era irmão do meu avô Luiz Barbosa de Moura, e pai de Vitória.  Atualmente, por causa de disputas de herança, a casa vive fechada esperando decisão da justiça.

Ainda na foto é possível ver, ao fundo a esquerda, a “Serra de seu Pedro Azevedo Maia”. À direita, uma pontinha da Serra conhecida como “Pedra da Fé”, no beiço da RN 203  na entrada que dá acesso à Barcelona - da casa de Vitória até Barcelona devem dá uns 13 quilômetros. Da casa do meu avô são 10. Também é possível ver, a abaixo, uma longa extensão de terra branca. É um rio. Uns chamam de “rio de Ruy Barbosa” (por que ele nasce naquele município). Mas, nunca se definiu um nome para ele, que deságua, há alguns quilômetros, no Rio Potengi.

Após aqueles coqueiros vistos na foto já era as terras do meu avô, que ficava nas duas margens. E curiosamente é ali onde se dividem os municípios de Barcelona e Ruy Barbosa.  Informo que o meu avô, e todos de sua geração, chamava Ruy Barbosa de “oi d’água” - Olho D’Água do Castro, seu antigo nome, foi substituído para homenagear o tribuno baiano por ter o mesmo defendido a causa, ganha pelo Rio Grande do Norte, sobre o Ceará, pelas terras do atual município de Tibau.

Pois bem, um dia de 1971/72, quando eu tinha uns dez anos de idade, fui com um primo de mamãe, de nome Tomé, lavar uns cavalos naquele rio. Meu avô não gostava que os animais de casa dormissem sujos. Por isso tínhamos que dá banho todos os dias. Depois soltávamos no pasto. A primeira reação dos animais era rolar no chão. Meu avô, do alpendre de casa, olhava aquela reação de cara fechada, mas nada dizia. Amava cavalos. Vi muitas vezes ele, abraçado com a cabeça do animal encostada em sua barrica, acariciando “conversando” baixinho no ouvido do seu preferido. E quem montava o cavalo de vovô dizia: “o que diabo seu Luiz faz com esse bicho que só trota com ele”?


Relampeava e trovejava muito aquele fim de tarde chuvoso e, temendo que o rio descesse com mais água, Tomé me mandou voltar logo para casa puxando dois cavalos e eu a pé.  As águas já chegavam aos meus joelhos, mas não estavam violentas. Caminhei de encontro ao rio procurando um lugar melhor para subir o barranco. Quando finalmente encontrei, os cavalos me puxaram as rédeas, levantando a cabeça violentamente. Por pouco não caí nas águas. Levantei a vista e uma enorme “corre campo” estava se contorcendo na barreira, com o bote armado em minha direção. Gelei, petrifiquei e comecei a gritar desesperadamente. Tomé largou os outros animais e correu na minha direção. Ele estava há uns trezentos metros de mim. Felizmente, eu gritei tanto que a cobra, assustada, desapareceu sem eu ver para onde foi. Em seguida desabei num choro, sem conseguir sai do lugar (minhas pernas tremiam feito vara verde) segurando os animais. E o primo segundo, do meu lado, tentando me acalmar. (fcb/cp)

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